sexta-feira, outubro 23, 2015

O incrível caso dos ninhos azuis

Zé Edu Camargo 
National Geographic

Foto: Zé Edu Camargo 
Japu começando a construção do ninho no manguezal

O japu (também conhecido como guaxo em algumas regiões) é uma ave comum em muitos estados do Brasil, com exceção de uma parte do Nordeste e do Sul. Da família dos xexéus e iraúnas (a Icteridae) ele é um engenhoso construtor e um bicho sociável. Os japus costumam eleger uma mesma árvore para formar a “colônia” de ninhos, que ficam pendurados como brincos nos galhos mais expostos – concentrados, eles têm proteção mútua contra predadores. O ninho é normalmente feito com fibras naturais entrelaçadas de maneira engenhosa, formando uma espécie de bolsa, com entrada por cima.

Na Ilha do Algodoal (PA), no entanto, os japus decidiram inovar. Ali eles fazem ninhos no manguezal, à beira de canais que se ligam com o oceano. E usam como matéria-prima uma fibra abundante na região, mas que não tem nada de natural: linhas de náilon de antigas cordas de redes e boias de navegação que vêm dar no mangue trazidas pela maré. O efeito visual é impressionante. Como a maioria das cordas usadas por pescadores ali é azul, os ninhos acabam tomando essa cor, fazendo um contraste interessante com o verde das folhas no manguezal. O uso de materiais estranhos, no entanto, não é desconhecido na ciência. Acompanhe uma pequena entrevista com o ornitólogo Luciano Lima, pesquisador do Observatório de Aves – Instituto Butantan.

Foto: Zé Edu Camargo
Os japus constroem os ninhos no formato de uma bolsa

Blog: A mudança de hábitos alimentares e de comportamento em função de alterações no ambiente é comum entre as aves? É algo esperado encontrar situações como essa dos japus em Algodoal?
Luciano Lima: A capacidade de se adaptar a mudanças no ambiente e/ou novos recursos, no caso material para construção do ninho, é o que permite que algumas espécies ocorram, ou mesmo aumentem sua população, em ambientes alterados, como áreas urbanas. Comportamentos inovadores estão sujeito ao “olhar” atento da seleção natural. Dessa forma, embora não seja raridade observar uma determinada espécie fazendo algo “inesperado”, a probabilidade que esse comportamento seja fixado, ou seja, passe a fazer parte daquela população, ou mesmo espécie, é geralmente remota.

Blog: O uso de uma fibra artificial nos ninhos pode afetar de alguma maneira a população?
Luciano Lima: Por se tratar de um comportamento diretamente relacionado com uma parte importante do ciclo de vida da espécie, no caso sua reprodução, o uso das fibras artificiais poderia sim afetar positivamente, ou negativamente essa população. Para responder essa pergunta seria necessário um estudo mais detalhado. Mas podemos assumir pelo menos três hipóteses. 1) que as fibras artificiais trazem alguma vantagem para espécie deixando, por exemplo, os ninhos mais resistentes ao clima ou aos predadores; 2) que elas representam uma desvantagem, por exemplo atraindo mais predadores por conta de sua coloração menos discreta ou é possível ainda que as fibras esquentem mais o que poderia representar um problema no calor amazônico; e 3) que as fibras artificiais seriam equivalentes às fibras naturais e não representariam qualquer vantagem ou desvantagem significativa.

Blog: Há outros casos curiosos de “inovação” no comportamento das aves?
Luciano Lima: Existem outros casos interessantes relacionados com a construção de ninhos com materiais pouco convencionais. Pessoalmente já observei no Parque Nacional do Itatiaia alguns ninhos de guaxe (Cacicus haemorrhous) construídos também com fibra artificial, mas de coloração verde. Alguns dos casos mais inusitados de construção de ninho com materiais artificiais por aves brasileiras envolvem alguns parentes de um habilidoso “pedreiro”, o joão-de-barro (família Furnariidae). Existem reportados na literatura científica alguns ninhos de espécies como o curutié (Certhiaxis cinnamomeus) e o joão-teneném (Synallaxis spixi) construídos inteiramente com pedaços de arame. O grande ornitólogo Helmut Sick, comenta em seu livro “Ornitologia Brasileira”, sobre um ninho de joão-teneném encontrado na cidade do Rio de Janeiro “construído em boa parte de arame (inclusive farpado) que as aves catavam em fábrica próxima”, cujo peso aproximado chegava a 15kg!

Foto: Zé Edu Camargo 
Os ninhos ficam próximos, formando uma colônia para proteção mútua






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